A pergunta que toda a gente me faz em janeiro

Há sempre uma altura do ano em que recebo várias mensagens diferentes a perguntar exactamente a mesma coisa: “tenho de declarar isto no IRS?”. A resposta curta é não, mas como toda a resposta curta sobre impostos, ela esconde nuances que vale a pena perceber. E como a resposta longa envolve o IEJO — Imposto Especial de Jogo Online —, é mais interessante do que parece.

Vou explicar quem paga imposto sobre as tuas apostas em jogos NBA, quanto é, para onde vai e por que o apostador português comum pode dormir tranquilo nessa frente, com uma única ressalva muito específica que importa conhecer.

O que é o IEJO e como funciona

O IEJO é o imposto que recai sobre os operadores de jogo online em Portugal. Foi criado em 2015 com o regime jurídico do jogo online, e desde então é a principal forma como o Estado português recolhe receita fiscal das apostas legais à cota e dos jogos de fortuna ou azar online.

Funciona assim: as casas com licença SRIJ pagam ao Estado uma taxa que incide sobre as apostas desportivas à cota. A taxa é calculada sobre as receitas brutas do operador, não sobre o teu lucro individual. Quando ganhas uma aposta de cem euros, o Estado já cobrou a sua parte ao operador antes de tu sequer receberes o pagamento. Esta é a chave da arquitectura fiscal das apostas online em Portugal: o sistema é desenhado para que o apostador particular nunca tenha de declarar, calcular ou pagar imposto sobre cada aposta individual.

O peso destas receitas para o orçamento do Estado é significativo. O IEJO gerou 353 milhões de euros para o Estado português em 2025, um crescimento de 5,47% face a 2024. Apenas no primeiro trimestre de 2025, a contribuição totalizou 82,7 milhões de euros — mais baixa em 4% face ao período homólogo, mas ainda assim uma fonte robusta de receita pública.

Os ganhos do apostador particular pagam IRS?

Não, e este é o ponto mais importante deste artigo. Os ganhos obtidos em apostas online em casas com licença SRIJ não constituem rendimento sujeito a IRS para o apostador particular residente em Portugal. Não há quadro a preencher, não há rubrica a declarar, não há cálculo a fazer. O Estado já recebeu o que tinha a receber através do IEJO pago pela casa.

Esta isenção é um traço estruturante do mercado regulado português e tem uma consequência prática importante para qualquer pessoa que aposte em jogos NBA com regularidade: os teus levantamentos da casa de apostas para a tua conta bancária são rendimento líquido, sem retenção, sem obrigação declarativa adicional. Apostas cem euros, ganhas duzentos, levantas duzentos, ficas com os duzentos.

A ressalva muito específica que mencionei na introdução é esta: os ganhos têm de vir de casas com licença SRIJ. Se apostas em casas estrangeiras sem licença portuguesa, a situação fiscal muda. Esses ganhos são tecnicamente rendimentos a declarar à Autoridade Tributária, e a interpretação exacta da rubrica aplicável depende do caso. Para a esmagadora maioria dos apostadores que se mantém dentro do mercado regulado, esta complicação nunca se materializa — mas para quem mistura casas legais e estrangeiras, vale a pena consultar um contabilista quando os valores começam a ser significativos.

Há outro ponto frequentemente esquecido: os depósitos não são despesa dedutível. Se apostaste mil euros durante o ano em casas SRIJ e ganhaste novecentos, perdeste cem em termos líquidos — e essa perda não é dedutível em IRS, do mesmo modo que os ganhos não são tributáveis. O sistema é simétrico: o apostador particular vive completamente fora do circuito fiscal pessoal.

Quanto arrecada o Estado com este produto

Os números públicos da APAJO e do SRIJ permitem perceber a dimensão real do mercado. As receitas brutas dos jogos online totalizaram 1.206 milhões de euros em 2025, das quais 447 milhões em apostas desportivas à cota. Este último valor cresceu 3,23% face ao ano anterior — por larga margem o menor crescimento de sempre, sobretudo porque o mercado já está maturado e porque a margem média das casas subiu de 21,1% em 2024 para 22% em 2025, o que sustentou parcialmente as receitas mesmo com volume de apostas a crescer mais lentamente.

O 4.º trimestre de 2024 foi o melhor trimestre absoluto do regime, com receita bruta de 323 milhões de euros — recorde histórico. E os portugueses, no agregado, apostaram 23 mil milhões de euros em jogos online em 2025, com média diária de 63 milhões de euros. Não é dinheiro pouco. Não é mercado pequeno.

Destes valores, o Estado retirou os 353 milhões de euros de IEJO em 2025. É um sistema que funciona pela escala: muitos apostadores, muitas apostas, margem por aposta pequena, receita acumulada substancial. Para quem aposta no individual, o efeito visível é zero no Modelo 3 do IRS. Para o Estado, o efeito visível é mais de um terço de mil milhões de euros anuais.

Para onde vai a redistribuição do IEJO

Há um detalhe sobre o IEJO que normalmente passa despercebido aos apostadores e que vale a pena conhecer: o imposto não vai todo para o cofre central do Estado. Uma parte é redistribuída para o desporto, através da Confederação do Desporto de Portugal e das federações das diferentes modalidades.

O cálculo é proporcional ao peso de cada modalidade no volume das apostas. O futebol, sendo a modalidade dominante, recebe a maior fatia — 44,7 milhões de euros em 2024. O basquetebol, sendo a terceira modalidade mais apostada em Portugal, recebeu 4,57 milhões de euros nesse mesmo ano, ou 7,4% do bolo desportivo redistribuído. Não é uma quantia trivial para uma federação que tem de financiar selecções, formação de jovens e estrutura competitiva.

Há aqui uma ironia interessante para quem aposta em jogos NBA: a tua aposta na NBA contribui — através do IEJO pago pela casa — para o financiamento do basquetebol federado em Portugal. A NBA representou 51,6% de todas as apostas em basquetebol no mercado regulado nacional num único trimestre de 2024, o que significa que metade da contribuição do basquetebol para o IEJO veio de pessoas a apostar em jogos disputados a milhares de quilómetros de distância. O dinheiro circula de formas que ninguém previu quando o regime foi desenhado.

Esta redistribuição também explica por que o sector federado nacional tem uma posição relativamente cooperante face ao mercado regulado das apostas. As receitas do IEJO são uma fonte real de financiamento para o desporto português, e qualquer mudança que reduza a base do mercado regulado afecta directamente os orçamentos das federações.

O que faço sempre que abro uma nova conta

Aprendi a verificar três coisas antes de depositar dinheiro numa nova casa portuguesa: confirmar a licença SRIJ válida no site oficial do regulador, ler com atenção as condições gerais para perceber prazos de levantamento, e fazer um pequeno depósito teste para validar o circuito completo de pagamento. Depois disso, posso apostar com a tranquilidade de saber que tudo o que ganhar é meu, sem letras pequenas fiscais à espera de me apanhar em janeiro do ano seguinte.

É exactamente esta tranquilidade que justifica, na minha leitura, a escolha quase exclusiva por casas legais portuguesas em vez de operadores estrangeiros com cotações marginalmente melhores. A diferença de cotação raramente compensa a complexidade fiscal e a ausência de protecção do consumidor que vem com casas fora do regime SRIJ. Para uma comparação organizada de quem oferece o quê dentro do mercado regulado, vale o desvio até ao guia de melhores casas de apostas NBA legais em Portugal.

Tenho de declarar levantamentos de casas SRIJ em algum sítio do IRS?
Não. Os ganhos obtidos em casas com licença SRIJ não constituem rendimento sujeito a IRS para o apostador particular residente em Portugal. Não há quadro a preencher nem rubrica a declarar — o sistema é desenhado para que o imposto seja pago integralmente pelo operador através do IEJO, antes de o pagamento te chegar.
O Estado português recebe muito dinheiro com apostas em basquetebol?
Recebe quantia relevante. O IEJO total gerou 353 milhões de euros em 2025, e parte dessa receita é redistribuída para o desporto federado. O basquetebol recebeu 4,57 milhões de euros desta redistribuição em 2024, sendo a terceira modalidade mais apostada em Portugal depois do futebol e do ténis.